4.12.09

lapso.

ele entrou na garagem, sentou no carro e parou com a mão na chave no contato. pensou em tudo o que ela lhe dissera no momento anterior, sobre como ele não tinha qualquer interesse nela, sobre o fim. recostou a cabeça no banco e fechando os olhos, adormeceu.
acordou em outro carro, de outra cor, no meio da estrada. teve dificuldade pra controlar o veículo. tentava se lembrar de como tinha ido parar lá. de repente, ao seu lado, ouviu:

- Amor, você tá legal?
- Tati???? - disse ele com cara de quem chupou limão.
- E quem mais seria, André?
- É... É... Quem mais?

sorriu. pisou mais fundo no acelerador, o vento batendo nos cabelos que lhe açoitavam o rosto. a curva que vinha pela frente seria mais que uma curva. no começo dela ele recostou a cabeça comodamente no banco, e de novo adormeceu.
acordou num sofá, em frente a tevê. o noticiário despejava tragédias sensacionalisticamente. sentia sede, muita sede. levantou, sentiu-se tonto, apoiou-se no que pode pra chegar até a cozinha. o filtro estava vazio. andou até a geladeira, abriu, e disse:

- Tati?

ela sorria, rija, como se estivesse paralisada.
André fechou a geladeira e se encaminhou pro corredor pensando: "Onde será que se enfiou minha mulher, do pescoço pra baixo?"

(já era o sexto casamento...)

1.12.09

o imperfeito.

o sua melhor qualidade era ser imperfeito.
fazia doer como ninguém.
mas, quando a dor lhe rebatia nas faces, culpava o outro.
e assim foi ficando tão longe de seu sonho
que quando percebeu estava ele mesmo num sonho
que não era dele.

28.8.09

Deise Fê.

hoje eu saí de casa meio tarde, aproveitando a carona muito oportuna do meu pai. chegando na estação de trem, coloquei o Belchior pra tocar. é impressionante como eu sempre me arrepio com Passeio. desde 2006 (quando eu conheci a música) é assim. me dá um nó no peito, uma vontade de desabar! o disco é curtinho, e eu terminei de ouvir lendo um tantinho mais do Harry Potter e As Relíquias da Morte.
quando cheguei na estação Domingos de Morais precisava de algo pra ouvir até chegar na porta do trabalho, então vasculhei o iPod atrás de algo: Beulah. aos primeiros acordes de Hello Resolven (The Coast Is Never Clear, 2001) eu imediatamente me lembrei da Deise Fê. não à toa: a moça que me apresentou a banda, assim como toda a turma da Elephant Six (Apples In Stereo, Of Montreal, Circulatory System, Olivia Tremor Control, Neutral Milk Hotel, dentre outros). lembrei dos tantos momentos que passamos, eu, ela e ygor. de como éramos inseparáveis e de como as coisas mudaram.

deu saudade...
(recorrência estranha da palavra saudade, aqui.)

20.8.09

receio.

até quando vai parecer que eu fui mesmo feito pra essa vida?

tomara que pra sempre, obrigado.


14.7.09

saudade.

ele esperava.
nunca chegava no horário, mas hoje tinha conseguido ser pontual.
a impaciência - pontuada por passos curtos daqui pra lá - era efeito da pontualidade dela, que sempre chegara antes dele.
ela chegou, olhando-o com uma expressão de desculpas, com o mesmo andar sereno de todas as vezes.
- oi. e aí? - ele disse.
- tudo bem. e aí? - respondeu ela.
ele abriu um sorriso e disse: - aí.
(...)


(eu vivo tão sozinho de... saudade.)

4.7.09

vontade de sentir a maresia batendo no rosto...

8.6.09

escrevi uma cena linda, dentro da minha cabeça.
qual não foi minha surpresa ao notar que Ela podia se mostrar cada vez mais bonita, a cada dia que passa.


em cada trejeito, cada palavra. cada vez que eu a olhava...

20.5.09

a escolha #4.

se para ele aquele mesmo instante de êxtase tinha se tornado um martírio, agora já não se tratava simplesmente de uma questão profissional.
as intermitências do tempo, esse grande brincalhão, haviam lhe trazido um novo desafio, assim como o mar, outrora revolto, no momento de calmaria traz os restos do barco afundado. a questão agora se tornara estritamente pessoal, coisa que não havia acontecido em todos esses anos de prática da temida (e redentora) Escolha.
aquela moça lhe intrigava tão profundamente que queria ser capaz de causar nela dor muito mais fustigante que o suspiro lépido da morte. precisava pensar em como se vingaria da única pessoa que conseguira escapar do seu julgo até ali.
acalmou-se, fitou o horizonte tímido que ali surgia. recostou-se na poltrona e contemplou a primeira estrela que já surgia no céu. deixou que o tempo agisse, à partir dali. iria ter sua vingança, cedo ou tarde.
o desafio contra a moça de cabelos curtos e lábios carnudos estava lançado...



pra quem não entendeu, a escolha #3 está aqui. depois dela, a patrícia rossi reescreveu o fim dessa estória aqui, lançando um novo desafio a ela. daí resolvemos fazer disso um pingue-pongue, muito legal.

9.5.09

falando... sério.

apaixonei-me por esses aqui.



7.5.09

a procura #3

por quê é que você procura algo?
pelo que suspira? quantos meios de conseguir as coisas você usa?
eu não sei ainda qual o motivo de tantas perguntas aparecerem pra nós assim, como as pedrinhas no caminho.
sei que muitas delas vão ficar sem resposta por muito tempo. pra algumas delas não teremos resposta nunca.
fomos feitos pra morrer, isso é fato. então, por quê não viver conscientes disso e aproveitar o tempo que aqui nos resta?
boa pergunta, rapaz. muito boa pergunta...

4.5.09

Parabéns...

... aos amigos corintianos que foram campeões em cima do meu time ontem. mereceram.

agora, me digam de QUEM foi a idéia de JERICO de misturar os fatores: PAPEL + FAÍSCAS???
será que por nenhum momento a cavalgadura pensou que isso podia gerar FOGO, OMG?!!!

beijomeliga.

28.4.09

augusta diário.

03h35 da manhã. meu sono foi embora, assim que você chegou.
eu quis te beijar, te sentir bem perto. esquecer do mundo la fora, de todas as buscas que ainda me atormentam e só pensar no quanto as coisas mais simples parecem tão perfeitamente acomodadas quando você está por perto.
lembrei de uma coisa bonita que escrevi, muito tempo atrás. quis te mandar. ainda não o fiz, pois o Wilco tocando aqui me fez perder a noção de tudo.
Jeff Tweedy devia virar estátua quando morresse, e ser entitulado "O faquir da dor", como já diria o tio Jards Macalé, tão sabiamente.
me lembrei de como tudo é tão cruel pra todos nós, hoje em dia. de como todas as coisas nos fazem sofrer. da pressão do dia-a-dia, da rotina que mata os sonhos, da falta de cuidado e zêlo entre as pessoas. nada disso pode abalar-me as estruturas agora. nada disso tudo que já me abalou.
fecho os olhos. unhas vermelhas (mais precisamente Vermelho Paixão)passam pelo meu braço, enquanto cada um dos meus vários pelos se arrepia e cai novamente. sinto o cheiro dos seus cabelos. mesmo com meu cigarro aceso quase a noite toda, o cheiro deles me toma sempre a atenção. e provocam sorriso. enroscam na barba por fazer. me beijam o rosto, levemente.
vejo seus olhos, fugindo dos meus, sem quererem fixar-se. e, do jeito que eu sempre olho pra tudo que me encanta os olhos, sorrio de lado. ao ver isso, seus olhos se fixam, e você ilumina todo o lugar com um dos mais belos sorrisos.
saio, acendo um cigarro. olho pra rua, penso em como me preparar pros caminhos que a vida traça e cimenta com a morte. esqueço até de mim quando sinto seu braço me envolver por trás. realmente, é impossível ficar sequer um tantinho triste-reflexivo com você por perto.
te envolvo em meus braços, seu rosto em meu ombro direito. abraço apertado, com vontade. guardaria você dentro de mim assim, se fosse possível. pra proteger de qualquer mal, e manter perto. do jeito que tem que ser. perto o bastante pra um beijo (delicioso), sempre que quisesse.
de repente me vem uma alegria tamanha.
eu soube. eu vi.

- eu amo você. - eu disse, com lágrimas nos olhos.


(foi o que aconteceu. dentro de mim.)

18.4.09

muito barulho por nada (ou a arte de parafrasear shakespeare sem dar sequer a mínima pra tudo o que ele disse).

era uma vez a Cidade Perfeita.
lá tudo funcionava perfeitamente: não havia lixo na rua, não se viam mendigos ou crianças abandonadas, todos estavam inseridos na sociedade e dela participavam ativamente. não havia corrupção, os ônibus nunca estavam lotados. e é de dentro de algum desses veículos que o nosso amigo Reginaldo começou a revolucionar.
vinha ele com seus fones de ouvido, o terno alinhadíssimo, postura ereta.
sentou-se numa poltrona vazia. não havia ninguém do lado. até uma moça entrar pela porta do ônibus, girar a catraca e aproximar-se dele. ela já era conhecida de vista de Reginaldo, tomavam a condução juntos quase todos os dias. sempre se entreolhavam, um sentado num banco à frente do veículo, outro sentado mais atrás. estavam sempre se esbarrando. mas Reginaldo nunca tinha se proposto a ir falar com a moça. hoje porém, achava que seria diferente. observou os movimentos esguios da guria, com olhar atento. ela veio, procurou por um lugar vazio, e sentou-se exatamente do lado de Reginaldo, encostando de leve seu braço no dele, com um sorriso no rosto.
o rapaz ficou eufórico.
de repente, a moça notou um barulho estranho. e vinha de reginaldo. ela levantou-se imediatamente, assustada, levou a mão à boca.
Reginaldo percebeu, e assustou-se também.
depois disso, os demais no ônibus também perceberam, e ficaram muito alterados.
queriam tirar o rapaz do ônibus. temiam por sua saúde, podia ser uma epidemia nova, pra ameaçar a perfeição da rotina da cidade e de sua população.
reginaldo tirou os fones, e então pode conferir o porquê de tanto espanto. o barulho era ensurdecedor.
o ônibus parou. motorista e cobrador pediram aos demais passageiros que se afastassem do rapaz barulhento.
vieram os jornais, a polícia, o exército, a igreja.
todos queriam ver o que estava ameaçando tanto assim a vida na Cidade Perfeita.
foram horas de conversação e ponderação entre os poderes públicos da cidade. ninguém sabia o que fazer com Reginaldo.
o rapaz estava já em agonia. não podia descer do ônibus, nem ir ao trabalho, nem voltar para casa. não podia estar perto da moça, a quem ele tanto queria bem.
era noite já, quando a decisão foi tomada pelas autoridades: implodiriam o ônibus, bem como tudo (e todos) que dentro dele estivessem.
Reginaldo deu adeus à sua amada de longe, vertendo uma única lágrima.
o estrondo. a fumaça. todos ficaram apreensivos.
do meio dos escombros, ferro retorcido e derretido via-se uma luminosidade rosada saindo.
um funcionário dos bombeiros foi ao local, devidamente protegido por uma vestimenta anti-radioatividade, revirou os escombros, e encontrou o tal objeto luminoso.
era um coração. radiante e intacto.
e acreditem, ainda pulsava...
foi assim que a Cidade e Reginaldo aprenderam, da pior maneira, que o amor assusta.

hã?

queria muito entender o que o orkut quer dizer com essas metáforas baratas...

Sorte de hoje: Todos ganham presentes, mas nem todos abrem o pacote.

aff. O.O

15.4.09

the most perfect day i've ever seen.



eu preciso falar alguma coisa?

do esquenta na casa do Márcio, ao sufoco na procura do ingresso já com todo mundo entrando, até o encontro com pessoas legais la dentro... tudo foi maravilhoso.


ouvindo: Radiohead - Knives Out.

14.4.09

sobre o que ninguém entende (e nunca poderá entender, obrigado).

Na pressa de encontrar motivos me perdi.
O Sol, a essa hora já se pondo, refletia a minha imensa falta de vontade em viver.
Balbuciei palavras, friamente. Retive nos olhos as expressões mais contidas. Enganei a todos.
Acharam que eu iria pra rua, ser aquele por quem todos lamentam, o cara que não deu certo. Mas eu tenho o dom de me reconfigurar. A singela aptidão de transformar o meu calvário em redenção, e isso sem mostrar nada, pra ninguém.
Por quê?
Porque ninguém entende. Ninguém poderia.
O meu modo de vida é sim, arcar com o mal. Sobre amá-lo, eu faço tipo.
O que eu amo é entrar numa rua, num bar, numa casa, respirar fundo e sentir o cheiro da alegria.
Ouvir acordes enquanto quase passo mal de tanta admiração.
Sentir as coisas, do jeito que eu não sentia.
O sangue correndo nas minhas veias, oxigenando o meu pobre cérebro.


"get on the turkish line
you've never written a diamond
under my door
i'm through this door..."

ouvindo Vanguart - Beloved.

13.4.09

sexta-feira 10.

entrei em casa e ela já me olhava do alto.
joguei o casaco na poltrona no canto da sala, beijei meu pai, desci as escadas pro quarto.
liguei o computador, coloquei um som calmo, entrei no banheiro e escovei os dentes.
logo depois, me despi, abri o box e entrei, girei o misturador e a água fez massagem nas minhas costas. fria. odeio esse chuveiro que não segura a temperatura. ajustei no misturador de modo a esquentar a água, peguei o xampu e esfreguei a cabeça cantando a próxima da lista.
terminado o banho me enrolei na toalha. saí pro quarto, peguei a calça, a mesma de sempre, o único jeans que me resta, vesti as pernas, fechei o botão.
peguei lá fora a tábua de passar. algo manchou justamente a camisa que eu tinha escolhido pra hoje. que saco! achei uma outra, melhor alternativa, liguei o ferro cantarolando: "Guarda os olhos nas palavras/Desinteressada, logo vira o rosto/E a página".
camisa passada, desodorante, um pouco d'água pra lubrificar a garganta tão maltratada a semana toda. ainda bem que a febre passou. ainda bem que chegou logo esse dia!
subo pro quarto do meu pai, creme de barbear, 3 lâminas roçando meu rosto, a barba (ou projeto disso) saiu dele. parada no quarto da irmã, tem lá um espelhão. roupa: ok. cabelo: é... ok. a barba tá legal. o peito: estranhamente tranquilo.
desço ao quarto novamente e confiro outros detalhes, carteira, cartões telefônico e do banco (tudo bem que eu não tenho um tostão na conta, mas...), chaves, Trident, Lucky Strike Red, o isqueiro vermelho. tudo certo.
subo, dou uma breve explicação de onde e com quem estarei, me despeço e saio. assim que abro a porta ela está lá me olhando. caminho até o portão. abro, saio, fecho. vou andando, olhando pra ela, que me chama, fala comigo. Durante todo o caminho.
Aproveito a companhia pra desabafar, e peço ajuda. sorte. calma.



hoje vejo que ganhei um baita dum presente.


comprometer-se mode: on.

11.4.09







declaro recesso por tempo indeterminado. voltarei a postar, tão logo as palavras parem de me querer comprometer!



(maniazinha chata essa, não?)
.








7.4.09

Sou #1.

Marcelo era um cara normal.

A infância tranqüila em meio ás peladas de rua, banho de mangueira no quintal dos fundos, a roda de choro no domingo, pegar o violão do avô escondido... Essas eram as lembranças mais frescas na sua memória. Mas não tinha lembranças claras de convivência, com qualquer familiar que seja.A adolescência, perdida entre discos de Cartola e Chico, encontrou-se nas bandas de rock oitentistas, nas calças rasgadas e no baixo que ganhara do seu pai, antes desse falecer.

Foi cuspido para a vida adulta, assim, na marra, logo aos 17, com a morte da mãe. Depois disso, foi tudo um turbilhão. Viu-se obrigado a sustentar-se e a arcar com os estudos, que acabavam naquele ano, pra alívio do rapaz. Forçando a memória não conseguia perceber a lacuna enorme que havia entre conseguir a vaga no Diário e ver a si mesmo casado e prestes a se tornar pai.

Jane era o oposto dele. Não combinavam em nada. Pensando bem, agora, não sabia como tinham mantido o namoro por dois anos. Mesmo vasculhando fundo não achava lembrança de um momento juntos, felizes.

A não ser no dia em que Téo nasceu. Podia lembrar perfeitamente, como se ouvisse naquele momento, o choro sufocado do filho ao deixar o ventre de sua esposa, a cara de joelho peculiar a todos os recém-nascidos. Lembrou de como foi percebendo detalhes na fisionomia da criança, como os olhos, ora parecidos com os de Jane, ora parecidos com os seus.

O filho era o que prendia o casal um ao outro, e, embora isso lhes pareça ruim, à primeira impressão, não era. Eles podiam não se dar bem em momento nenhum, mas quando o que estava em jogo era o bem-estar ou assunto relativo a Téo, eles concordavam. Sentavam, ponderavam todos os prós e contras, todas as vantagens e desvantagens sem brigas ou discussões.

O menino, já com oito anos de idade, vivia em liberdade. Ia pra rua, fazer como seu pai, correr atrás da bola com a camisa do Vasco que o avô, que nem chegou a conhecer, dara a seu pai quando este tinha a mesma idade. A fixação pelos instrumentos do pai, inclusive o antigo Jazzbass que este possuia no estúdio, era vista pelo pai como vocação, embora nada lhe fosse imposto com relação ao caminho que quisesse seguir profissionalmente.




continua...





o texto acima faz parte de um projeto (dos muitos interminados e esquecidos nos meus escritos) de MojoBook sobre o disco do Marcelo Camelo, Sou (Nós, pra alguns).
estarei postando aqui os trechos da história, que vai sendo escrita entre outros textos e letras.




a procura #2.

eu não vi quando você partiu.
rebusquei meu anseio, fiz dele força.
procurei por toda parte,
me encontrei sempre, à parte.

fiz do chão abrigo, sentei e acendi um cigarro
pra queimar todo e qualquer receio.
agora, tudo o que eu preciso é sonhar.
acordar sem querer e sorrir.
acordar por querer, pra sonhar acordado.
ver de perto o que guardaram pra mim atrás do véu...

31.3.09

a procura.

os vícios, as letras, os ócios
as cores, os jogos, sentidos
preceitos, amores, colóquios
loucuras, tremores, amigos

o que é que você vai procurar agora?

os livros, as cartas, os nomes
as dores, os copos vazios
conceitos, rumores impróprios
fartura, temores, a vida inteira

o que é que você vai procurar agora?
já não bastava ter perdido tudo?
o que é que você vai estragar agora?
o meu lugar no universo ainda não vagou.

o que é que vc vai...
pra onde é que vc vai?


música nova do Assinado Maria, minha banda.
quem quiser ouvir, www.assinadomaria.com.br
:*

27.3.09


de: ryotiras.com

abatido.

me revirei do avesso e tudo ficou pessoal.
eu não penso mais.
não posso mais.
o fio da meada eu perdi.
me sobra esquentar os lençóis.
perder de vista a vida no sol.
me humilhar.
me sentir vazio. sem cor.
os luxos e o idealismo são meus.
e são muito do que eu tenho.
solto um "perdoe-me" naturalmente.
me escondo no colchão.
me deixo abater.


[abatido me refaço melhor. e agradeço o empurrão.
só dispenso a queda.]


19.3.09

os pássaros.

euaflito e só,confuso e semvocê por aqui.assim eu sonhei mas isso eu não quis,que
diferença?o dua se fez assim.há um conflito,um nóeu difuso enfim os pássaros vêmme
levar aívisitar océu e pra ver vocêlevantando o véu pra mim,mas eles só me vêemquando eu
já não seise eu estou são,o que é um sonho ruim,o que é um sonhobom,que diferença?a
vida é igual,assim eeu não seieunãoseieunãoseise isso é você.quem bate aí?
se é pra eu te verentão deixa
eudormir.



18.3.09

a escolha #2

virei as costas e dei alguns passos, com o cigarro aceso na mão esquerda, a outra enfiada no bolso da calça.
a chuva só não me açoitava o rosto por causa do capuz que eu usava.
de repente me senti observado, não pelos olhos que eu tinha deixado mareados, ali, há poucos metros para trás, mas por outros olhos, distantes, frios, redentórios.
continuei caminhando, olhando pro prédio à minha esquerda.
um brilho, de espelho, refletindo alguma luz, me bateu nos olhos.
soube que tinha pouco tempo.
me despedi mentalmente dela. dei o último trago no cigarro e joguei a bituca no meio fio.
uma bala atravessou meu peito, antes mesmo da bituca tocar o chão.
fui o escolhido.
assim, fica marcada a dor em mim.





câmbio, desligo.

14.3.09

conclusão.

se houvesse mesmo um 'Devorador de Gentes', eu hoje seria o seu escolhido.

11.3.09

amigos, amigos. negócios à parte.

Um deles era fiscal da receita. O outro policial federal.
Conversavam abertamente, eram amigos, desses com quem se pode falar sobre as coisas da vida, as coisas da morte. Havia excesso de entendimento. Eram quase irmãos, na realidade.
Soube-se um dia, que, por meios excusos, o fiscal havia ganhado uma quantia exorbitante em dinheiro. Dizia ele ser prêmio da loteria. Foi instaurado inquérito, uma investigação era conduzida. Por quem? Seu amigo, policial federal.
No dia, a polícia armou o flagrante. E lá estava o fiscal, pego com a mão na massa, corrompendo funcionários, oferecendo dinheiro em troca de abertura dos aeroportos do estado.
O fiscal, com a impulsividade de um animal, não hesitou em fugir, correr dali. Não podia ser pego. Ainda queria ter a vida farta, a mansão, os carros, piscina, férias no Taiti.
O policial sonhava com a ascenção profissional, o cargo alto no departamento, até a secretaria de segurança, por quê não?
Deu voz de prisão. Ordenou que o amigo colocasse as mãos onde pudesse vê-las.
O amigo não obedeceu ao chamado.
Era caso de integridade profissional, ele não podia agir com emoção. A razão devia pontuar todas as suas decisões.
Três tiros. Um corpo amigo caído no asfalto. Nenhum remorso acompanhando seu sono.
 
 
O Brasil é o país do futuro.
As notícias mostram isso.

9.3.09

a escolha #1

amanhece um dia bonito, ensolarado, por aqui.eu, do alto dos meus 58 anos nunca vi - juro! - amanhecer tão deslumbrante!o cigarro na minha mão esquerda, tão perto do meu rosto a ponto de poder ouvir o estalar do tabaco queimando, está no começo, e eu me ponho a pensar em quem será o meu objeto do dia.ah sim, todos os dias eu me ocupo com alguém, um estranho, uma pessoa qualquer que esteja passando por aqui, pra ser o meu trabalho do dia. isso requer certo grau de paciência e muita observação. precisa ser a pessoa certa, que se encaixe perfeitamente nos meus critérios, predispostos e planejados por eu mesmo, para essa tarefa diária.essa ocupação já foi oficial, quando eu servia o exército do meu país, antes de me aposentar.sempre achei que fosse essa minha vocação, por isso empreguei tantos esforços pra fazer o meu melhor, pra me doar ao máximo pra isso.acredito sim em pessoas que nascem destinadas a serem algo, seria uma contradição fortíssima não acreditar. mesmo que essa habilidade nata não seja, tecnicamente, um trabalho. eu falo em vocação: aptidão completa e inegável para determinada tarefa ou comportamento.veja só, o senhor que passa pela rua agora. acredito que para você fica difícil ver, dada a tamanha distância, afinal estamos no 13º andar! mas, com tantos anos de prática em observação, nessa tarefa tão monótona às vezes, tenho os olhos e a mente treinados para perceber toda a realidade escondida por detrás dos rostos e expressões que vejo, sim, muito bem daqui de cima.voltando ao senhor, que carrega o neto pela mão, na calçada, percebo que deve ter tido uma vida difícil, talvez criado no interior, num lugar onde o trabalho o arraigou desde muito cedo, ainda menino. pelas rugas e pela expressão consigo ver que teve a vida repleta de desafios, dores excrutinantes, e hoje, já conformado com todas as injustiças que sofreu, leva no semblante a paz ingênua dos quase-mortos, sem saber que a foice lhe aguarda, logo ali, na esquina próxima.já a moça que vem em sentido contrário, de cabelos presos em um rabo de cavalo no alto da cabeça, calça jeans e camisa, uma pasta de couro no braço esquerdo, aproximadamente 20, 25 anos talvez, leva no andar imponente a insegurança torta dos jovens. insegurança essa que eu sempre notei, que é inerente a qualquer ser humano em parte de sua vida. Não serviria como meu propósito de hoje.O que eu procuro, não só hoje, mas, o que procurei e ainda faço com todo ardor – mesmo sendo meu exercício um hobbie, por agora – é a completa e desilusória infelicidade.Passa agora um homem afoito. Olhando pra trás como se fosse perseguido por um fantasma, ou qualquer sutileza invisível dessas, caminha a passo rápido e desordenado. Um carro se aproxima, encostando na calçada, a seu lado. Dele saem uma mulher, de blusa branca, cabelo cacheado, comprido, amarrado. Diz-lhe bom dia cordialmente, dá a volta no veículo e abre a porta traseira, de onde sai uma criança. Está aí uma coisa que nunca poderá ser meu "objeto de desejo": uma criança. Elas são cheias de vitalidade, felizes por demais! Não me serviria de nada recruta-los como meu propósito de hoje. Nem de dia qualquer.Mais um cigarro, e hoje eu sinto que não poderei passar do segundo para encontrar meu escolhido.Atentem pra este fato: hoje, singularmente, pode ser o primeiro dia de minha já desgastada vida sem um escolhido. O primeiro em 58 anos sem um propósito diário.O homem afoito conversa, agora calmo e sereno, com a mulher. Despede-se e beija a criança, ensaia um abraço. Vira as costas e continua em seu passo apressado, exatamente como entrara no meu extenso campo de visão da cena inicial.Estou quase em desespero. Não agüento esperar mais um minuto sequer. Parece que hoje é o dia tão aguardado. O dia em que, inevitavelmente, minha tarefa não se concretizará, e assim poderei me retirar.Mais ninguém passa, em questão de 6 ou 7 minutos, não sei bem ao certo.Aperto o toco de cigarro no cinzeiro, alojado no parapeito de minha ampla janela, e me preparo para resignar-me e ir passar um café, pra finalmente começar o meu primeiro dia de despropósito.De repente um estalo: Epa. Peraí!Meu olhar pousou sobre uma moça, aproximadamente 30 anos, cabelos louros, já meio sem cor, muito bonita. Usa uma blusa de cor roxa, decotada, exibindo seios belíssimos. Pelo corpo eu não diria que tem lá seus trinta anos, mas vejo pelo semblante, pela expressão que carrega.Em seus olhos há uma opacidade doída. Deles emana uma tristeza que me invade o corpo, a mente. Confunde-me os sentidos. Brinca com minha impureza, com toda a gama de minhas experiências mais sórdidas.Eu seria capaz de descer e me dirigir a ela. Pedir-lhe que ficasse ao meu lado pelo restante que ainda tenho de vida, pra que eu pudesse ter aquele olhar comigo até meu último suspiro solfejar. Mas esse, meus amigos, não é o meu propósito. Ela é minha escolha, minha redenção. Afinal, sou um devorador de gentes!Ajeito o corpo na cadeira de couro, afasto as pernas, inclino os ombros.O estampido: PÁ!A moça, infeliz e indubitavelmente linda, cambaleia e cai, o lindo rosto no meio fio, braços estendidos, como que pede um abraço. O filete de sangue escorre do buraco em sua testa, e me faz sorrir como um garoto.Minha vocação está salva e ativa.Junto a cápsula, parto em direção à cozinha. Coloco a água pra ferver e preparo o filtro no coador de café. Meus dias sem a infelicidade seriam tão descrentes quanto eu mesmo.


idealizado e escrito depois de um nascer do Sol perfeito, em 06 de março de 2009, observando os passantes, da varanda da casa de minha mãe.

estou sozinho.
me cansei dos classificados, da internet rápida que não é tão rápida assim. cansei dos velhos arquivos de música.
quero ficar à parte, por um tempo.
ter coisas novas pra conhecer.

tomo um café, fumo um cigarro.
andar na Paulista vai me fazer bem.

4.3.09

a culpa é de quem?

eu escolhi a dedo as palavras.
meti, no meio de nós dois, tantas sílabas quantas foram possíveis.
você nem sequer me deu tempo de sonhar.
convenci-me de que tudo havia terminado. a parte ruim, pelo menos.
em uma semana, soube que o pior estava por vir.

{hoje, não sobrou nenhum vestígio de humanidade em mim. saco a pistola, lhe beijo a testa, e puxo o gatilho.}

e u f o r i a .

Circo Instancial.

- você não faz questão nenhuma de entender!
- EU não faço??? é diferente não fazer questão de entender algo que se pode, Luísa!
- você é um cretino, Marcelo!
- é... talvez eu seja um cretino mesmo. mas pelo menos eu assumo isso.

a porta bateu estrondosamente. Marcelo sentou-se na cama, esperando a volta da namorada, talvez com uma faca ou um revólver na mão. não deu outra:
- Eu vou me matar! - disse ela, brandindo a faca contra o próprio pescoço.
- Luísa! olha a sujeira!!! pelamordedeus!
- FILHO DA PUTA!!! - ao dizer isso, ela joga a faca contra o namorado, num gesto de fúria cega. o cabo atinge a testa dele, que atordoado, se apoia na janela. um filete de sangue escorre pelo rosto, bifurcando-se no nariz e caindo sobre cada uma das maçãs do rosto do rapaz.
- Luísa, você tá maluca, mulher??? - diz ele, ainda meio tonto.
- Ai, Meu Deus!!! - Luísa diz, com olhar culpado.
- Sai daqui, sua desequilibrada! - Marcelo refuta o toque da garota, se afastando bruscamente.

Luísa começa a chorar. C o p i o s a m e n t e !
Senta no canto da sala, abriga o rosto na mãos.
Marcelo sai cambaleando, pra cozinha, pega um pano de prato - daqueles com mensagens - e enxuga o sangue. abre o armário em cima da geladeira, pega a caixa de primeiros socorros.
enquanto suturava a própria testa, Marcelo cantarolava This House Is A Circus do Arctic Monkeys. Imediatamente Luísa deixa o quarto e corre em direção a ele, pára na porta da cozinha e diz:
- PORRA, MARCELO! VOCÊ SABE QUE EU ODEIO ESSA MÚSICA!
- Aham. Eu faço de propósito, Luísa. Gosto de te azucrinar a vida... - retruca ele, em tom sarcástico.
- Caralho, Marcelo. Quando foi que você virou esse monstro?
- Quando me apaixonei por você, Meu Bem.

15.1.09

os segundos depois do clique.

o vulto vinha em sua direção, cada vez mais feroz. cada vez mais veloz.
a escuridão do cômodo não lhe deixava ver a face do agressor, que já envolvia os dedos em seu pescoço.
arrastou-o até o canto da sala, onde uma réstia de luz penetrava pela janela. pôde ver-lhe os olhos, cinzas de ira, vermelhos de ódio.
pensou em todas as coisas das mais ruins que tinha feito, a fim de justificar, ou pelo menos tentar, as atitudes violentas que o cidadão à sua frente tomava, sem uma gota sequer de hesitação em si. não conseguia entender por que ele devia ser tão sumariamente executado, ali, peito despido, só de cuecas, na sala do apartamento escuro, no meio da madrugada, tendo sido acordado de um sonho com a vizinha do lado, uma jovem de 17 anos.
ouviu o roçar do metal no tecido do bolso do homem, que levantou o objeto por cima do ombro.
ouviu um clique metálico e logo se deu conta de que seriam seus ultimos segundos no mundo.
um estampido, a arma apontada pra parede manchada de sangue, um buraco de bala no meio da mancha, o corpo velho e magro no chão, caído de lado, olhos vidrados, olhando pra porta de entrada.
tinha voltado a sonhar com a vizinha do lado...