28.4.09

augusta diário.

03h35 da manhã. meu sono foi embora, assim que você chegou.
eu quis te beijar, te sentir bem perto. esquecer do mundo la fora, de todas as buscas que ainda me atormentam e só pensar no quanto as coisas mais simples parecem tão perfeitamente acomodadas quando você está por perto.
lembrei de uma coisa bonita que escrevi, muito tempo atrás. quis te mandar. ainda não o fiz, pois o Wilco tocando aqui me fez perder a noção de tudo.
Jeff Tweedy devia virar estátua quando morresse, e ser entitulado "O faquir da dor", como já diria o tio Jards Macalé, tão sabiamente.
me lembrei de como tudo é tão cruel pra todos nós, hoje em dia. de como todas as coisas nos fazem sofrer. da pressão do dia-a-dia, da rotina que mata os sonhos, da falta de cuidado e zêlo entre as pessoas. nada disso pode abalar-me as estruturas agora. nada disso tudo que já me abalou.
fecho os olhos. unhas vermelhas (mais precisamente Vermelho Paixão)passam pelo meu braço, enquanto cada um dos meus vários pelos se arrepia e cai novamente. sinto o cheiro dos seus cabelos. mesmo com meu cigarro aceso quase a noite toda, o cheiro deles me toma sempre a atenção. e provocam sorriso. enroscam na barba por fazer. me beijam o rosto, levemente.
vejo seus olhos, fugindo dos meus, sem quererem fixar-se. e, do jeito que eu sempre olho pra tudo que me encanta os olhos, sorrio de lado. ao ver isso, seus olhos se fixam, e você ilumina todo o lugar com um dos mais belos sorrisos.
saio, acendo um cigarro. olho pra rua, penso em como me preparar pros caminhos que a vida traça e cimenta com a morte. esqueço até de mim quando sinto seu braço me envolver por trás. realmente, é impossível ficar sequer um tantinho triste-reflexivo com você por perto.
te envolvo em meus braços, seu rosto em meu ombro direito. abraço apertado, com vontade. guardaria você dentro de mim assim, se fosse possível. pra proteger de qualquer mal, e manter perto. do jeito que tem que ser. perto o bastante pra um beijo (delicioso), sempre que quisesse.
de repente me vem uma alegria tamanha.
eu soube. eu vi.

- eu amo você. - eu disse, com lágrimas nos olhos.


(foi o que aconteceu. dentro de mim.)

18.4.09

muito barulho por nada (ou a arte de parafrasear shakespeare sem dar sequer a mínima pra tudo o que ele disse).

era uma vez a Cidade Perfeita.
lá tudo funcionava perfeitamente: não havia lixo na rua, não se viam mendigos ou crianças abandonadas, todos estavam inseridos na sociedade e dela participavam ativamente. não havia corrupção, os ônibus nunca estavam lotados. e é de dentro de algum desses veículos que o nosso amigo Reginaldo começou a revolucionar.
vinha ele com seus fones de ouvido, o terno alinhadíssimo, postura ereta.
sentou-se numa poltrona vazia. não havia ninguém do lado. até uma moça entrar pela porta do ônibus, girar a catraca e aproximar-se dele. ela já era conhecida de vista de Reginaldo, tomavam a condução juntos quase todos os dias. sempre se entreolhavam, um sentado num banco à frente do veículo, outro sentado mais atrás. estavam sempre se esbarrando. mas Reginaldo nunca tinha se proposto a ir falar com a moça. hoje porém, achava que seria diferente. observou os movimentos esguios da guria, com olhar atento. ela veio, procurou por um lugar vazio, e sentou-se exatamente do lado de Reginaldo, encostando de leve seu braço no dele, com um sorriso no rosto.
o rapaz ficou eufórico.
de repente, a moça notou um barulho estranho. e vinha de reginaldo. ela levantou-se imediatamente, assustada, levou a mão à boca.
Reginaldo percebeu, e assustou-se também.
depois disso, os demais no ônibus também perceberam, e ficaram muito alterados.
queriam tirar o rapaz do ônibus. temiam por sua saúde, podia ser uma epidemia nova, pra ameaçar a perfeição da rotina da cidade e de sua população.
reginaldo tirou os fones, e então pode conferir o porquê de tanto espanto. o barulho era ensurdecedor.
o ônibus parou. motorista e cobrador pediram aos demais passageiros que se afastassem do rapaz barulhento.
vieram os jornais, a polícia, o exército, a igreja.
todos queriam ver o que estava ameaçando tanto assim a vida na Cidade Perfeita.
foram horas de conversação e ponderação entre os poderes públicos da cidade. ninguém sabia o que fazer com Reginaldo.
o rapaz estava já em agonia. não podia descer do ônibus, nem ir ao trabalho, nem voltar para casa. não podia estar perto da moça, a quem ele tanto queria bem.
era noite já, quando a decisão foi tomada pelas autoridades: implodiriam o ônibus, bem como tudo (e todos) que dentro dele estivessem.
Reginaldo deu adeus à sua amada de longe, vertendo uma única lágrima.
o estrondo. a fumaça. todos ficaram apreensivos.
do meio dos escombros, ferro retorcido e derretido via-se uma luminosidade rosada saindo.
um funcionário dos bombeiros foi ao local, devidamente protegido por uma vestimenta anti-radioatividade, revirou os escombros, e encontrou o tal objeto luminoso.
era um coração. radiante e intacto.
e acreditem, ainda pulsava...
foi assim que a Cidade e Reginaldo aprenderam, da pior maneira, que o amor assusta.

hã?

queria muito entender o que o orkut quer dizer com essas metáforas baratas...

Sorte de hoje: Todos ganham presentes, mas nem todos abrem o pacote.

aff. O.O

15.4.09

the most perfect day i've ever seen.



eu preciso falar alguma coisa?

do esquenta na casa do Márcio, ao sufoco na procura do ingresso já com todo mundo entrando, até o encontro com pessoas legais la dentro... tudo foi maravilhoso.


ouvindo: Radiohead - Knives Out.

14.4.09

sobre o que ninguém entende (e nunca poderá entender, obrigado).

Na pressa de encontrar motivos me perdi.
O Sol, a essa hora já se pondo, refletia a minha imensa falta de vontade em viver.
Balbuciei palavras, friamente. Retive nos olhos as expressões mais contidas. Enganei a todos.
Acharam que eu iria pra rua, ser aquele por quem todos lamentam, o cara que não deu certo. Mas eu tenho o dom de me reconfigurar. A singela aptidão de transformar o meu calvário em redenção, e isso sem mostrar nada, pra ninguém.
Por quê?
Porque ninguém entende. Ninguém poderia.
O meu modo de vida é sim, arcar com o mal. Sobre amá-lo, eu faço tipo.
O que eu amo é entrar numa rua, num bar, numa casa, respirar fundo e sentir o cheiro da alegria.
Ouvir acordes enquanto quase passo mal de tanta admiração.
Sentir as coisas, do jeito que eu não sentia.
O sangue correndo nas minhas veias, oxigenando o meu pobre cérebro.


"get on the turkish line
you've never written a diamond
under my door
i'm through this door..."

ouvindo Vanguart - Beloved.

13.4.09

sexta-feira 10.

entrei em casa e ela já me olhava do alto.
joguei o casaco na poltrona no canto da sala, beijei meu pai, desci as escadas pro quarto.
liguei o computador, coloquei um som calmo, entrei no banheiro e escovei os dentes.
logo depois, me despi, abri o box e entrei, girei o misturador e a água fez massagem nas minhas costas. fria. odeio esse chuveiro que não segura a temperatura. ajustei no misturador de modo a esquentar a água, peguei o xampu e esfreguei a cabeça cantando a próxima da lista.
terminado o banho me enrolei na toalha. saí pro quarto, peguei a calça, a mesma de sempre, o único jeans que me resta, vesti as pernas, fechei o botão.
peguei lá fora a tábua de passar. algo manchou justamente a camisa que eu tinha escolhido pra hoje. que saco! achei uma outra, melhor alternativa, liguei o ferro cantarolando: "Guarda os olhos nas palavras/Desinteressada, logo vira o rosto/E a página".
camisa passada, desodorante, um pouco d'água pra lubrificar a garganta tão maltratada a semana toda. ainda bem que a febre passou. ainda bem que chegou logo esse dia!
subo pro quarto do meu pai, creme de barbear, 3 lâminas roçando meu rosto, a barba (ou projeto disso) saiu dele. parada no quarto da irmã, tem lá um espelhão. roupa: ok. cabelo: é... ok. a barba tá legal. o peito: estranhamente tranquilo.
desço ao quarto novamente e confiro outros detalhes, carteira, cartões telefônico e do banco (tudo bem que eu não tenho um tostão na conta, mas...), chaves, Trident, Lucky Strike Red, o isqueiro vermelho. tudo certo.
subo, dou uma breve explicação de onde e com quem estarei, me despeço e saio. assim que abro a porta ela está lá me olhando. caminho até o portão. abro, saio, fecho. vou andando, olhando pra ela, que me chama, fala comigo. Durante todo o caminho.
Aproveito a companhia pra desabafar, e peço ajuda. sorte. calma.



hoje vejo que ganhei um baita dum presente.


comprometer-se mode: on.

11.4.09







declaro recesso por tempo indeterminado. voltarei a postar, tão logo as palavras parem de me querer comprometer!



(maniazinha chata essa, não?)
.








7.4.09

Sou #1.

Marcelo era um cara normal.

A infância tranqüila em meio ás peladas de rua, banho de mangueira no quintal dos fundos, a roda de choro no domingo, pegar o violão do avô escondido... Essas eram as lembranças mais frescas na sua memória. Mas não tinha lembranças claras de convivência, com qualquer familiar que seja.A adolescência, perdida entre discos de Cartola e Chico, encontrou-se nas bandas de rock oitentistas, nas calças rasgadas e no baixo que ganhara do seu pai, antes desse falecer.

Foi cuspido para a vida adulta, assim, na marra, logo aos 17, com a morte da mãe. Depois disso, foi tudo um turbilhão. Viu-se obrigado a sustentar-se e a arcar com os estudos, que acabavam naquele ano, pra alívio do rapaz. Forçando a memória não conseguia perceber a lacuna enorme que havia entre conseguir a vaga no Diário e ver a si mesmo casado e prestes a se tornar pai.

Jane era o oposto dele. Não combinavam em nada. Pensando bem, agora, não sabia como tinham mantido o namoro por dois anos. Mesmo vasculhando fundo não achava lembrança de um momento juntos, felizes.

A não ser no dia em que Téo nasceu. Podia lembrar perfeitamente, como se ouvisse naquele momento, o choro sufocado do filho ao deixar o ventre de sua esposa, a cara de joelho peculiar a todos os recém-nascidos. Lembrou de como foi percebendo detalhes na fisionomia da criança, como os olhos, ora parecidos com os de Jane, ora parecidos com os seus.

O filho era o que prendia o casal um ao outro, e, embora isso lhes pareça ruim, à primeira impressão, não era. Eles podiam não se dar bem em momento nenhum, mas quando o que estava em jogo era o bem-estar ou assunto relativo a Téo, eles concordavam. Sentavam, ponderavam todos os prós e contras, todas as vantagens e desvantagens sem brigas ou discussões.

O menino, já com oito anos de idade, vivia em liberdade. Ia pra rua, fazer como seu pai, correr atrás da bola com a camisa do Vasco que o avô, que nem chegou a conhecer, dara a seu pai quando este tinha a mesma idade. A fixação pelos instrumentos do pai, inclusive o antigo Jazzbass que este possuia no estúdio, era vista pelo pai como vocação, embora nada lhe fosse imposto com relação ao caminho que quisesse seguir profissionalmente.




continua...





o texto acima faz parte de um projeto (dos muitos interminados e esquecidos nos meus escritos) de MojoBook sobre o disco do Marcelo Camelo, Sou (Nós, pra alguns).
estarei postando aqui os trechos da história, que vai sendo escrita entre outros textos e letras.




a procura #2.

eu não vi quando você partiu.
rebusquei meu anseio, fiz dele força.
procurei por toda parte,
me encontrei sempre, à parte.

fiz do chão abrigo, sentei e acendi um cigarro
pra queimar todo e qualquer receio.
agora, tudo o que eu preciso é sonhar.
acordar sem querer e sorrir.
acordar por querer, pra sonhar acordado.
ver de perto o que guardaram pra mim atrás do véu...