4.12.09

lapso.

ele entrou na garagem, sentou no carro e parou com a mão na chave no contato. pensou em tudo o que ela lhe dissera no momento anterior, sobre como ele não tinha qualquer interesse nela, sobre o fim. recostou a cabeça no banco e fechando os olhos, adormeceu.
acordou em outro carro, de outra cor, no meio da estrada. teve dificuldade pra controlar o veículo. tentava se lembrar de como tinha ido parar lá. de repente, ao seu lado, ouviu:

- Amor, você tá legal?
- Tati???? - disse ele com cara de quem chupou limão.
- E quem mais seria, André?
- É... É... Quem mais?

sorriu. pisou mais fundo no acelerador, o vento batendo nos cabelos que lhe açoitavam o rosto. a curva que vinha pela frente seria mais que uma curva. no começo dela ele recostou a cabeça comodamente no banco, e de novo adormeceu.
acordou num sofá, em frente a tevê. o noticiário despejava tragédias sensacionalisticamente. sentia sede, muita sede. levantou, sentiu-se tonto, apoiou-se no que pode pra chegar até a cozinha. o filtro estava vazio. andou até a geladeira, abriu, e disse:

- Tati?

ela sorria, rija, como se estivesse paralisada.
André fechou a geladeira e se encaminhou pro corredor pensando: "Onde será que se enfiou minha mulher, do pescoço pra baixo?"

(já era o sexto casamento...)

1.12.09

o imperfeito.

o sua melhor qualidade era ser imperfeito.
fazia doer como ninguém.
mas, quando a dor lhe rebatia nas faces, culpava o outro.
e assim foi ficando tão longe de seu sonho
que quando percebeu estava ele mesmo num sonho
que não era dele.