18.4.09

muito barulho por nada (ou a arte de parafrasear shakespeare sem dar sequer a mínima pra tudo o que ele disse).

era uma vez a Cidade Perfeita.
lá tudo funcionava perfeitamente: não havia lixo na rua, não se viam mendigos ou crianças abandonadas, todos estavam inseridos na sociedade e dela participavam ativamente. não havia corrupção, os ônibus nunca estavam lotados. e é de dentro de algum desses veículos que o nosso amigo Reginaldo começou a revolucionar.
vinha ele com seus fones de ouvido, o terno alinhadíssimo, postura ereta.
sentou-se numa poltrona vazia. não havia ninguém do lado. até uma moça entrar pela porta do ônibus, girar a catraca e aproximar-se dele. ela já era conhecida de vista de Reginaldo, tomavam a condução juntos quase todos os dias. sempre se entreolhavam, um sentado num banco à frente do veículo, outro sentado mais atrás. estavam sempre se esbarrando. mas Reginaldo nunca tinha se proposto a ir falar com a moça. hoje porém, achava que seria diferente. observou os movimentos esguios da guria, com olhar atento. ela veio, procurou por um lugar vazio, e sentou-se exatamente do lado de Reginaldo, encostando de leve seu braço no dele, com um sorriso no rosto.
o rapaz ficou eufórico.
de repente, a moça notou um barulho estranho. e vinha de reginaldo. ela levantou-se imediatamente, assustada, levou a mão à boca.
Reginaldo percebeu, e assustou-se também.
depois disso, os demais no ônibus também perceberam, e ficaram muito alterados.
queriam tirar o rapaz do ônibus. temiam por sua saúde, podia ser uma epidemia nova, pra ameaçar a perfeição da rotina da cidade e de sua população.
reginaldo tirou os fones, e então pode conferir o porquê de tanto espanto. o barulho era ensurdecedor.
o ônibus parou. motorista e cobrador pediram aos demais passageiros que se afastassem do rapaz barulhento.
vieram os jornais, a polícia, o exército, a igreja.
todos queriam ver o que estava ameaçando tanto assim a vida na Cidade Perfeita.
foram horas de conversação e ponderação entre os poderes públicos da cidade. ninguém sabia o que fazer com Reginaldo.
o rapaz estava já em agonia. não podia descer do ônibus, nem ir ao trabalho, nem voltar para casa. não podia estar perto da moça, a quem ele tanto queria bem.
era noite já, quando a decisão foi tomada pelas autoridades: implodiriam o ônibus, bem como tudo (e todos) que dentro dele estivessem.
Reginaldo deu adeus à sua amada de longe, vertendo uma única lágrima.
o estrondo. a fumaça. todos ficaram apreensivos.
do meio dos escombros, ferro retorcido e derretido via-se uma luminosidade rosada saindo.
um funcionário dos bombeiros foi ao local, devidamente protegido por uma vestimenta anti-radioatividade, revirou os escombros, e encontrou o tal objeto luminoso.
era um coração. radiante e intacto.
e acreditem, ainda pulsava...
foi assim que a Cidade e Reginaldo aprenderam, da pior maneira, que o amor assusta.

11 comentários:

Carlos Howes disse...

Caramba...é realmente uma adaptação de shakespeare ao cotidiano moderno! Na sua forma exagerada, conturbada, mas é! O caos, as moléstias, a imprensa (o pior de todos os males!), e acima de tudo os corações partidos cada vez mais longes de seus devidos lugares.

Esse negócio ficou muito bom!

Quanto ao que tu escreveu no meu blog, tu tem liberdade para musicar qq porcaria q eu escreva sempre. E fico lisonjeado com qq lembrança do Dorival nesse caso. Abraço.

Fabi disse...

POxa, fiquei curiosa para ver o final do texxto, oito da manha, decido entrar na internet, um sono horrivel, abro seu blog, e olha o que encontro.
=D

Karla Marrocos disse...

isso poderia perfeitamente ser um sonho meu hahaha não com tantos detalhes, é claro, mas o ritmo... é infernal, sabe? acho demais!

genial o texto!

um beijo!

Marina disse...

Nossa, adorei o texto, me prendeu muito, o final é lindo! parabens!
obrigada pela visita, adorei seu blog, vou coloca-lo nos favoritos! beijão

[P.!] disse...

pra quem não sabe o que deve ser amor, ou nunca deu a ele uma chance, pode ser ensurdecedor, pois é melhor ignorar...

pra que tanto medo?

{causa pânico delicioso}

demais! adorei!

Amanda Bia disse...

que triste...
amor assusta mesmo. muito. mas no final é tão bom...

Kundalini disse...

Shakespeare? Sorry, só conheço Wilde!

:P

Amor?

"There's no love in modern life..."

Porém milagres acontecem, bom prá você... né pequeno?

Você merece.

Marta Pinheiro disse...

admito que parei de prestar atenção depois que li 'reginaldo' porque me lembrei de 'ronaldo' e comecei a rir sozinha!

Bruna disse...

caralho! :O

Bruno Moreno disse...

boaa xará!!!
me recomendaram esse texto aqui!!!!
e eu gostei muito!
parabéns!
um abraço!

Ana disse...

Às vezes penso que o amor é um bicho feio e mal comido. Mas nos últimos tempos ele tem sido legal comigo, vai ver alguém o comeu.

Ótima adaptação.