31.3.09

a procura.

os vícios, as letras, os ócios
as cores, os jogos, sentidos
preceitos, amores, colóquios
loucuras, tremores, amigos

o que é que você vai procurar agora?

os livros, as cartas, os nomes
as dores, os copos vazios
conceitos, rumores impróprios
fartura, temores, a vida inteira

o que é que você vai procurar agora?
já não bastava ter perdido tudo?
o que é que você vai estragar agora?
o meu lugar no universo ainda não vagou.

o que é que vc vai...
pra onde é que vc vai?


música nova do Assinado Maria, minha banda.
quem quiser ouvir, www.assinadomaria.com.br
:*

27.3.09


de: ryotiras.com

abatido.

me revirei do avesso e tudo ficou pessoal.
eu não penso mais.
não posso mais.
o fio da meada eu perdi.
me sobra esquentar os lençóis.
perder de vista a vida no sol.
me humilhar.
me sentir vazio. sem cor.
os luxos e o idealismo são meus.
e são muito do que eu tenho.
solto um "perdoe-me" naturalmente.
me escondo no colchão.
me deixo abater.


[abatido me refaço melhor. e agradeço o empurrão.
só dispenso a queda.]


19.3.09

os pássaros.

euaflito e só,confuso e semvocê por aqui.assim eu sonhei mas isso eu não quis,que
diferença?o dua se fez assim.há um conflito,um nóeu difuso enfim os pássaros vêmme
levar aívisitar océu e pra ver vocêlevantando o véu pra mim,mas eles só me vêemquando eu
já não seise eu estou são,o que é um sonho ruim,o que é um sonhobom,que diferença?a
vida é igual,assim eeu não seieunãoseieunãoseise isso é você.quem bate aí?
se é pra eu te verentão deixa
eudormir.



18.3.09

a escolha #2

virei as costas e dei alguns passos, com o cigarro aceso na mão esquerda, a outra enfiada no bolso da calça.
a chuva só não me açoitava o rosto por causa do capuz que eu usava.
de repente me senti observado, não pelos olhos que eu tinha deixado mareados, ali, há poucos metros para trás, mas por outros olhos, distantes, frios, redentórios.
continuei caminhando, olhando pro prédio à minha esquerda.
um brilho, de espelho, refletindo alguma luz, me bateu nos olhos.
soube que tinha pouco tempo.
me despedi mentalmente dela. dei o último trago no cigarro e joguei a bituca no meio fio.
uma bala atravessou meu peito, antes mesmo da bituca tocar o chão.
fui o escolhido.
assim, fica marcada a dor em mim.





câmbio, desligo.

14.3.09

conclusão.

se houvesse mesmo um 'Devorador de Gentes', eu hoje seria o seu escolhido.

11.3.09

amigos, amigos. negócios à parte.

Um deles era fiscal da receita. O outro policial federal.
Conversavam abertamente, eram amigos, desses com quem se pode falar sobre as coisas da vida, as coisas da morte. Havia excesso de entendimento. Eram quase irmãos, na realidade.
Soube-se um dia, que, por meios excusos, o fiscal havia ganhado uma quantia exorbitante em dinheiro. Dizia ele ser prêmio da loteria. Foi instaurado inquérito, uma investigação era conduzida. Por quem? Seu amigo, policial federal.
No dia, a polícia armou o flagrante. E lá estava o fiscal, pego com a mão na massa, corrompendo funcionários, oferecendo dinheiro em troca de abertura dos aeroportos do estado.
O fiscal, com a impulsividade de um animal, não hesitou em fugir, correr dali. Não podia ser pego. Ainda queria ter a vida farta, a mansão, os carros, piscina, férias no Taiti.
O policial sonhava com a ascenção profissional, o cargo alto no departamento, até a secretaria de segurança, por quê não?
Deu voz de prisão. Ordenou que o amigo colocasse as mãos onde pudesse vê-las.
O amigo não obedeceu ao chamado.
Era caso de integridade profissional, ele não podia agir com emoção. A razão devia pontuar todas as suas decisões.
Três tiros. Um corpo amigo caído no asfalto. Nenhum remorso acompanhando seu sono.
 
 
O Brasil é o país do futuro.
As notícias mostram isso.

9.3.09

a escolha #1

amanhece um dia bonito, ensolarado, por aqui.eu, do alto dos meus 58 anos nunca vi - juro! - amanhecer tão deslumbrante!o cigarro na minha mão esquerda, tão perto do meu rosto a ponto de poder ouvir o estalar do tabaco queimando, está no começo, e eu me ponho a pensar em quem será o meu objeto do dia.ah sim, todos os dias eu me ocupo com alguém, um estranho, uma pessoa qualquer que esteja passando por aqui, pra ser o meu trabalho do dia. isso requer certo grau de paciência e muita observação. precisa ser a pessoa certa, que se encaixe perfeitamente nos meus critérios, predispostos e planejados por eu mesmo, para essa tarefa diária.essa ocupação já foi oficial, quando eu servia o exército do meu país, antes de me aposentar.sempre achei que fosse essa minha vocação, por isso empreguei tantos esforços pra fazer o meu melhor, pra me doar ao máximo pra isso.acredito sim em pessoas que nascem destinadas a serem algo, seria uma contradição fortíssima não acreditar. mesmo que essa habilidade nata não seja, tecnicamente, um trabalho. eu falo em vocação: aptidão completa e inegável para determinada tarefa ou comportamento.veja só, o senhor que passa pela rua agora. acredito que para você fica difícil ver, dada a tamanha distância, afinal estamos no 13º andar! mas, com tantos anos de prática em observação, nessa tarefa tão monótona às vezes, tenho os olhos e a mente treinados para perceber toda a realidade escondida por detrás dos rostos e expressões que vejo, sim, muito bem daqui de cima.voltando ao senhor, que carrega o neto pela mão, na calçada, percebo que deve ter tido uma vida difícil, talvez criado no interior, num lugar onde o trabalho o arraigou desde muito cedo, ainda menino. pelas rugas e pela expressão consigo ver que teve a vida repleta de desafios, dores excrutinantes, e hoje, já conformado com todas as injustiças que sofreu, leva no semblante a paz ingênua dos quase-mortos, sem saber que a foice lhe aguarda, logo ali, na esquina próxima.já a moça que vem em sentido contrário, de cabelos presos em um rabo de cavalo no alto da cabeça, calça jeans e camisa, uma pasta de couro no braço esquerdo, aproximadamente 20, 25 anos talvez, leva no andar imponente a insegurança torta dos jovens. insegurança essa que eu sempre notei, que é inerente a qualquer ser humano em parte de sua vida. Não serviria como meu propósito de hoje.O que eu procuro, não só hoje, mas, o que procurei e ainda faço com todo ardor – mesmo sendo meu exercício um hobbie, por agora – é a completa e desilusória infelicidade.Passa agora um homem afoito. Olhando pra trás como se fosse perseguido por um fantasma, ou qualquer sutileza invisível dessas, caminha a passo rápido e desordenado. Um carro se aproxima, encostando na calçada, a seu lado. Dele saem uma mulher, de blusa branca, cabelo cacheado, comprido, amarrado. Diz-lhe bom dia cordialmente, dá a volta no veículo e abre a porta traseira, de onde sai uma criança. Está aí uma coisa que nunca poderá ser meu "objeto de desejo": uma criança. Elas são cheias de vitalidade, felizes por demais! Não me serviria de nada recruta-los como meu propósito de hoje. Nem de dia qualquer.Mais um cigarro, e hoje eu sinto que não poderei passar do segundo para encontrar meu escolhido.Atentem pra este fato: hoje, singularmente, pode ser o primeiro dia de minha já desgastada vida sem um escolhido. O primeiro em 58 anos sem um propósito diário.O homem afoito conversa, agora calmo e sereno, com a mulher. Despede-se e beija a criança, ensaia um abraço. Vira as costas e continua em seu passo apressado, exatamente como entrara no meu extenso campo de visão da cena inicial.Estou quase em desespero. Não agüento esperar mais um minuto sequer. Parece que hoje é o dia tão aguardado. O dia em que, inevitavelmente, minha tarefa não se concretizará, e assim poderei me retirar.Mais ninguém passa, em questão de 6 ou 7 minutos, não sei bem ao certo.Aperto o toco de cigarro no cinzeiro, alojado no parapeito de minha ampla janela, e me preparo para resignar-me e ir passar um café, pra finalmente começar o meu primeiro dia de despropósito.De repente um estalo: Epa. Peraí!Meu olhar pousou sobre uma moça, aproximadamente 30 anos, cabelos louros, já meio sem cor, muito bonita. Usa uma blusa de cor roxa, decotada, exibindo seios belíssimos. Pelo corpo eu não diria que tem lá seus trinta anos, mas vejo pelo semblante, pela expressão que carrega.Em seus olhos há uma opacidade doída. Deles emana uma tristeza que me invade o corpo, a mente. Confunde-me os sentidos. Brinca com minha impureza, com toda a gama de minhas experiências mais sórdidas.Eu seria capaz de descer e me dirigir a ela. Pedir-lhe que ficasse ao meu lado pelo restante que ainda tenho de vida, pra que eu pudesse ter aquele olhar comigo até meu último suspiro solfejar. Mas esse, meus amigos, não é o meu propósito. Ela é minha escolha, minha redenção. Afinal, sou um devorador de gentes!Ajeito o corpo na cadeira de couro, afasto as pernas, inclino os ombros.O estampido: PÁ!A moça, infeliz e indubitavelmente linda, cambaleia e cai, o lindo rosto no meio fio, braços estendidos, como que pede um abraço. O filete de sangue escorre do buraco em sua testa, e me faz sorrir como um garoto.Minha vocação está salva e ativa.Junto a cápsula, parto em direção à cozinha. Coloco a água pra ferver e preparo o filtro no coador de café. Meus dias sem a infelicidade seriam tão descrentes quanto eu mesmo.


idealizado e escrito depois de um nascer do Sol perfeito, em 06 de março de 2009, observando os passantes, da varanda da casa de minha mãe.

estou sozinho.
me cansei dos classificados, da internet rápida que não é tão rápida assim. cansei dos velhos arquivos de música.
quero ficar à parte, por um tempo.
ter coisas novas pra conhecer.

tomo um café, fumo um cigarro.
andar na Paulista vai me fazer bem.

4.3.09

a culpa é de quem?

eu escolhi a dedo as palavras.
meti, no meio de nós dois, tantas sílabas quantas foram possíveis.
você nem sequer me deu tempo de sonhar.
convenci-me de que tudo havia terminado. a parte ruim, pelo menos.
em uma semana, soube que o pior estava por vir.

{hoje, não sobrou nenhum vestígio de humanidade em mim. saco a pistola, lhe beijo a testa, e puxo o gatilho.}

e u f o r i a .

Circo Instancial.

- você não faz questão nenhuma de entender!
- EU não faço??? é diferente não fazer questão de entender algo que se pode, Luísa!
- você é um cretino, Marcelo!
- é... talvez eu seja um cretino mesmo. mas pelo menos eu assumo isso.

a porta bateu estrondosamente. Marcelo sentou-se na cama, esperando a volta da namorada, talvez com uma faca ou um revólver na mão. não deu outra:
- Eu vou me matar! - disse ela, brandindo a faca contra o próprio pescoço.
- Luísa! olha a sujeira!!! pelamordedeus!
- FILHO DA PUTA!!! - ao dizer isso, ela joga a faca contra o namorado, num gesto de fúria cega. o cabo atinge a testa dele, que atordoado, se apoia na janela. um filete de sangue escorre pelo rosto, bifurcando-se no nariz e caindo sobre cada uma das maçãs do rosto do rapaz.
- Luísa, você tá maluca, mulher??? - diz ele, ainda meio tonto.
- Ai, Meu Deus!!! - Luísa diz, com olhar culpado.
- Sai daqui, sua desequilibrada! - Marcelo refuta o toque da garota, se afastando bruscamente.

Luísa começa a chorar. C o p i o s a m e n t e !
Senta no canto da sala, abriga o rosto na mãos.
Marcelo sai cambaleando, pra cozinha, pega um pano de prato - daqueles com mensagens - e enxuga o sangue. abre o armário em cima da geladeira, pega a caixa de primeiros socorros.
enquanto suturava a própria testa, Marcelo cantarolava This House Is A Circus do Arctic Monkeys. Imediatamente Luísa deixa o quarto e corre em direção a ele, pára na porta da cozinha e diz:
- PORRA, MARCELO! VOCÊ SABE QUE EU ODEIO ESSA MÚSICA!
- Aham. Eu faço de propósito, Luísa. Gosto de te azucrinar a vida... - retruca ele, em tom sarcástico.
- Caralho, Marcelo. Quando foi que você virou esse monstro?
- Quando me apaixonei por você, Meu Bem.